O financiamento mais caro e, agora, as tarifas aplicadas nos Estados Unidos - dois fatores que levam as empresas a adiar as compras de caminhões - fazem com que a direção da Scania olhe ao Brasil com preocupação neste momento. Apesar disso, há confiança numa reação das vendas no País, onde está uma de suas maiores operações no mundo e cuja produção é transportada na maioria das vezes sobre os veículos de carga.
Em Södertälje, cidade a 30 quilômetros de Estocolmo onde está sediada a matriz da montadora sueca, o CEO da Scania, Christian Levin, citou a jornalistas brasileiros de apenas três veículos - entre eles, o Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) - os dois obstáculos que têm gerado bastante insegurança às transportadoras que compram os caminhões da marca. Conforme Levin, todos os clientes da Scania no Brasil estão preocupados com o aumento da taxa de juros. Para piorar, acrescentou, as decisões de investimento desses clientes estão em compasso de espera por conta das tarifas de 50% que o presidente dos EUA, Donald Trump, passou a cobrar de grande parte dos produtos brasileiros.
"Se você olha para a Argentina, o mercado está indo muito bem, após muitos anos de sofrimento. Mas ainda que muitos mercados da América Latina mostrem um desempenho positivo, o Brasil é muito grande para nós, e o que acontece no Brasil é de extrema importância. Então, estamos neste ano um pouquinho preocupados com o Brasil", afirmou o executivo em entrevista aos jornalistas brasileiros que visitaram a sede em Södertälje na segunda-feira.
Houve, conforme diretores da Scania, uma inversão de comportamento entre os mercados do Brasil e da Europa, os dois principais da marca de caminhões de carga pesada. No ano passado, a produção na fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, bateu recorde, enquanto a da Europa minguou. Já em 2025, as encomendas de caminhões no Brasil estão caindo, na contramão da tendência positiva que a Scania observa no Velho Continente.
No entanto, Levin frisa que a Scania aprendeu, em quase sete décadas de presença no Brasil, que a economia do País também "samba" - isto é, sobe e desce -, de forma que uma reação é esperada à frente.
"Não tenho dúvida de que vai voltar porque o Brasil ainda tem uma parte enorme do transporte nos caminhões, e o mundo precisa de soja, açúcar e minério de ferro produzidos pelo País", ressaltou o CEO da Scania. "Mas bem neste momento, está realmente impactando nossas encomendas", ponderou Levin.
Livre comércio
Ao comentar as barreiras comerciais dos Estados Unidos, o CEO observou que, para a economia da Suécia, altamente dependente de exportações, o livre comércio é importante. Além disso, ressaltou que obstáculos tarifários são problemáticos a empresas com produtos globais como a Scania, uma vez que limitam a capacidade de as fábricas operarem de maneira funcional.
"O mais lógico seria 'vamos usar nossa fábrica no Brasil para exportar a países vizinhos; vamos usar nossa fábrica no México para exportar a todos os países vizinhos; vamos usar nossa fábrica na China para exportar para o Sudeste Asiático'. Qualquer coisa que limite isso é ruim para os negócios", declarou Levin. Além da Scania, ele é CEO do grupo Traton, braço da Volkswagen em veículos comerciais que também reúne, fora a marca sueca, MAN, International e Volkswagen Caminhões e Ônibus.
O executivo disse que não é possível ainda dimensionar o impacto das tarifas de Trump. Porém, avaliou que está claro que elas geram incertezas no curto prazo, o que leva as empresas a adiar investimentos. "E isso significa menos produção, menos emprego, menos lucro para investir no desenvolvimento de caminhões melhores. Então, é realmente uma espiral negativa quando são retiradas as possibilidades de crescimento", disse o CEO da Scania.
"Realmente acreditamos no livre comércio. Acreditamos que ele torna o mundo mais próspero", concluiu Levin.
*O repórter viajou a convite da Scania
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